"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)



“Presos ou soltos, nós, seres humanos, somos muito cegos e sós. Quase nunca conseguimos transcender os nossos estreitos limites para enxergar os outros e a nós mesmos sem projetar o nosso próprio vulto na face alheia e a cara dos outros na nossa.”

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segunda-feira, 27 de maio de 2013

ELOGIO À LOUCURA




Por: Maria das Graças Targino *



De médico e de louco, todos nós temos um pouco! Ditado popular antigo e moderno! Cada vez mais, nos perdemos dentre as tentações de exercitar o nosso lado médico: a prática extremamente perigosa da automedicação e mais audaciosa ainda, de prescrever às pessoas queridas as soluções mágicas que nos devolveram o bem-estar... A loucura, então, nem se fala! Falo da loucura crescente do mundo moderno!

E, então, crio a terminologia brincalhona para designar o “louco de carteirinha” e o “louco a varejo”. No primeiro caso, a loucura no sentido mais duro da palavra, quando remete ao hospício, aos tratamentos ainda dolorosos e avassaladores, apesar de toda a evolução da medicina... No segundo, praticamente, todos os seres humanos: neuroses, medos (doença do pânico ou não), manias, absurdos, insensatez, doidices, imprudências e tudo mais. São os desvios comportamentais que, invariavelmente, cometemos no cotidiano, por mais “normais” que pretendamos ser. Aliás, quem consegue estabelecer o que é normal? Se, na matemática, a unidade de normalidade de uma solução corresponde a um equivalente-grama por litro, como nós mensuramos a nossa normalidade?

Por tudo isto, hoje, penso nos loucos. Aqueles, acintosamente, cantados e decantados em piadas cruéis. Andam por aí. Pelas ruas das cidades grandes ou pequenas. Como avoantes, ora estão aqui, ora estão por aí. Não têm rumo certo. Assustam crianças ou despertam a crueldade dos adolescentes. Mas quase sempre, são loucos mansos, indefesos em seus discursos desconexos, em seus poemas bipartidos. Quase sempre, sujos em suas vestes úmidas de urina ou de excrementos. Quase sempre, carentes de afeto e de atenção.

Desde cedo, muito cedo, nutri estranha curiosidade por esses loucos perdidos no relento das ruas. Desde cedo, compreendi quão necessário é ser “normal”para ser respeitado. Desde cedo, ensinaram-me (e eu não aprendi) a esquecer a presença de uma tia louca no seio de uma família “nobre”. Ela se foi. Partiu em meio ao silêncio e alívio de muitos. Mas ficou no meu imaginário de adolescente. Nunca a esqueci. A vida inteira, vislumbrei nos loucos que passam, silenciosos ou barulhentos, doces ou bravos, exauridos pelas perseguições das brincadeiras cruéis, a oportunidade ímpar de resgatar o débito de amor para com a minha tia. Resgatar o carinho contido, a compreensão proibida, a cumplicidade expressa tardiamente, quando, longe dos olhares proibitivos, eu lhe dava todas as guloseimas que me pedia. Talvez tarde demais, mas, na verdade, no momento único em que me foi permitido fazê-lo. Quando ela desencantou e voltou aos céus, eu chorei todo um choro incontido. Chorei por ela, mas muito mais por todos nós, “loucos a varejo” ou pobres “normais”!




* Maria das Graças TARGINO, doutora em ciência da informação e estudante de jornalismo.






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"Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma... Todo o universo conspira a seu favor!" - Goethe "Sou sempre eu mesma,mas com certeza não serei a mesma para sempre!" Clarice Lispector

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