"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)




domingo, 12 de maio de 2013

A comprida sacola que arrastamos atrás de nós .






Por:ROBERT BLY

 Atrás de nós temos uma sacola invisível e, para conservar o amor de nossos pais, nela colocamos a parte de nós que nossos pais não apreciam. Quando começamos a ir à escola, nossa sacola já é bastante grande, E aí nossos professores nos dizem: "O bom menino não fica bravo com coisinhas à-toa", e nós guardamos nossa raiva na sacola. 



Depois fazemos o colegial e passamos por outro bom processo de guardar coisas na sacola. 
Qualquer parte de mim que fosse mais "lenta" ia para a sacola. Meus filhos passam 
agora por esse processo, que eu já tinha observado nas minhas filhas, mais velhas que eles. 
Minha mulher e eu olhávamos, consternados, quantas coisas elas colocavam na sacola, mas não 
havia nada que pudéssemos fazer. Minhas filhas pareciam tomar suas decisões com base na 
moda e nos ideais coletivos de beleza, e sofriam tanta pressão das amiguinhas quanto dos 
rapazes.Por isso sustento que o jovem de 20 anos conserva uma simples fatia daquele globo de 
energia. Imagine um homem que ficou com uma fina fatia — o restante do globo está na sacola 
— e que ele conhece uma mulher; digamos que ambos têm 24 anos de idade. Ela conservou 
uma fina e elegante fatia. Eles se unem numa cerimônia e essa união de duas fatias chama-se 
casamento. Mesmo unidos, os dois não formam uma pessoa! É exatamente por isso que o 
casamento, quando as sacolas são grandes, acarreta solidão durante a lua-de-mel. Claro que 
todos nós mentimos a esse respeito. "Como foi sua lua-de-mel?" "Fantástica, e a sua?"
Cada cultura enche a sacola com conteúdos diferentes. Na cultura cristã, a sexualidade 
geralmente vai para a sacola. E, com ela, muito da espontaneidade. Por outro lado, MarieLouise von Franz nos alerta para não sentimentalizarmos as culturas primitivas assumindo que 
elas não tinham nenhuma sacola. Ela diz que, na verdade, essas culturas tinham sacolas 
diferentes das nossas e, às vezes, até maiores. Talvez colocassem nelas a individualidade ou a 
inventividade. Aquilo que os antropólogos conhecem como "participação mística" ou "a 
misteriosa mente comunal" pode parecer muito bonito, mas talvez signifique apenas que todos 
os membros da tribo conhecem exatamente a mesma coisa e nenhum deles conhece nada além 
disso. E possível que as sacolas de todos os seres humanos sejam mais ou menos do mesmo 
tamanho,
Passamos nossa vida até os 20 anos decidindo quais as partes de nós mesmos que poremos 
na sacola e passamos o resto da vida tentando retirá-las de lá. Algumas vezes parece impossível 
recuperá-las como se a sacola estivesse lacrada. Vamos supor que a sacola está lacrada — o que 
acontece?... Uma grande novela do século XIX ofereceu uma idéia a respeito. Certa noite, 
Robert Louis Stevenson acordou e contou para a mulher um trecho do sonho que acabara de ter. 
Ela o convenceu a escrevê-lo, ele o fez e o sonho tornou-se o "Dr, Jekyll e Mr. Hyde". O lado 
agradável da personalidade torna-se, na nossa cultura idealista, cada vez mais agradável, O 
homem ocidental talvez seja, por exemplo, um médico liberal que só pensa em fazer o bem. Em 
termos morais e éticos, ele é maravilhoso. Mas a substância na sua sacola assume personalidade 
própria; ela não pode ser ignorada. A história conta que a substância trancada na sacola aparece, 
certo dia, em uma outra parte da cidade. Ela está cheia de raiva e, quando finalmente é vista, 
tem a forma e os movimentos de um gorila.
O que essa história conta é que quando colocamos uma parte de nós na sacola, essa parte 
regride. Retrocede ao barbarismo. Imagine um rapaz que lacra a sacola aos 20 e espera uns 
quinze ou vinte anos para reabri-la. O que ele irá encontrar? É triste, mas toda a sexualidade, 
selvageria, impulsividade, raiva e liberdade que ele colocou na sacola regrediram; não apenas 
seu temperamento se tornou primitivo como elas agora são hostis à pessoa que abre a sacola. O 
homem ou a mulher que abrem a sacola aos 45 anos sentem medo. Eles dão uma olhada e vêem 
a sombra de um gorila se esgueirando contra a parede; ora, qualquer pessoa que veja uma coisa dessas fica 
aterrorizada!
Pode-se dizer que, na nossa cultura, a maioria dos homens coloca o seu lado feminino (a 
mulher interior) na sacola. Quando ele quer, lá pelos 35 ou 40 anos, entrar novamente em 
contato com o seu lado feminino, a mulher interior talvez lhe seja bastante hostil. Nesse meio 
tempo, ele está enfrentando a hostilidade das mulheres no mundo exterior. A regra parece ser: o 
lado de fora é um espelho do lado de dentro. É assim que as coisas são neste nosso mundo. E a 
mulher que queria ser aceita pela sua feminilidade e para isso guardou seu lado masculino (o 
homem interior) na sacola, talvez descubra, vinte anos mais tarde, que ele lhe é hostil. Talvez 
ele também seja insensível e brutal em suas críticas. Essa mulher estará em apuros. Viver com 
um homem hostil dará a ela alguém a quem censurar e aliviará a pressão, mas não resolverá o 
problema da sacola fechada. Nesse meio tempo, ela está propensa a uma dupla rejeição: a do 
homem interior e a do homem exterior. Existe muita dor nisso tudo.
Cada parte da nossa personalidade que não amamos tornar-se-á hostil a nós. Ela também 
pode distanciar-se de nós e iniciar uma revolta contra nós. Muitos dos problemas sofridos pelos 
reis de Shakespeare desenvolveram-se a partir daí. Hotspur, lá "no País de Gales", rebela-se 
contra o rei. A poesia de Shakespeare é maravilhosamente sensível ao perigo dessas revoltas 
interiores. O rei, no centro, sempre está em perigo.
Quando visitei Bali há alguns anos, percebi que essa antiga cultura hindu utiliza a mitologia 
para trazer à luz do dia os elementos da sombra. Os templos encenam, quase todos os dias, 
representações do Ramayana. Algumas peças aterrorizantes são encenadas como parte do 
cotidiano da vida religiosa. Diante da maioria das casas balinesas existe uma figura esculpida 
em pedra: hostil, feroz, agressiva e com grandes dentes aguçados. Sua intenção não é fazer o 
bem. Visitei um fabricante de máscaras e vi seu filho, de 9 ou 10 anos, sentado diante da casa a 
esculpir, com seu cinzel, uma figura hostil e raivosa. O objetivo desse povo não é dissipar as 
energias agressivas — tal como nós fazemos com o nosso futebol ou os espanhóis com as suas 
touradas. Seu ideal é fazer essas energias emergirem na arte. Os balineses talvez sejam violentos 
e brutais na guerra mas, na vida cotidiana, parecem ser bem menos violentos que nós. O que 
isso significa? As pessoas do Sul dos Estados Unidos colocam no jardim anõezinhos negros de 
ferro forjado, como ajuda; nós, no Norte, fazemos o mesmo com pacíficos veadinhos. Gostamos 
de rosas no papel de parede, Renoir sobre o sofá e John Denver no aparelho de som. Então a 
agressividade escapa da sacola e ataca a todos.
Abandonemos o contraste entre as culturas balinesa e americana e sigamos em frente. Quero 
falar sobre a ligação entre as energias da sombra e o projetor de cinema. Vamos supor que 
miniaturizamos algumas partes de nós mesmos, as enrolamos como um filme e colocamos 
dentro de uma lata, onde elas ficarão no escuro. Então uma noite — sempre à noite — as formas 
reaparecem, imensas, e não conseguimos desviar nossos olhos delas. Estamos dirigindo à noite, 
fora da cidade, e vemos um homem e uma mulher numa enorme tela de cinema ao ar livre; 
paramos o carro e observamos, Algumas formas que foram enroladas dentro da lata 
(duplamente invisíveis, por estarem só parcialmente "reveladas" e por terem sido mantidas na 
escuridão) existem, durante o dia, apenas como pálidas imagens numa fina tira de celulóide 
cinzento. Quando uma certa luz se acende por trás de nós, formas fantasmagóricas aparecem na 
parede à nossa frente. Elas acendem cigarros: ameaçam os outros com revólveres.

 Nossa psique, portanto, é uma máquina natural de projeção; podemos recuperar as imagens que guardamos 
enroladas na lata e projetá-las para os outros ou sobre os outros.






Extraído do livro:Encontro-Da-Sombra.



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