"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)




domingo, 12 de setembro de 2010

O Terror do Espelho.


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Rubem Alves 



  • Ao que tudo indica, comer um tijolo diariamente faz mal à saúde.

  • Mais que dois maços de cigarro.

  • No entanto, nunca encontrei médico que combatesse este pernicioso hábito.

  • Falam do perigo do torresmo, das picanhas engorduradas, das frituras, do açúcar, da vida sedentária, da cerveja...

  • Mas sobre o perigo da ingestão de tijolos o silêncio é total. Claro.

  • Não é preciso.
  • Ninguém deseja comer tijolos.

  • A proibição aparece somente no lugar onde mora o desejo.

  •  Os bombeiros só são chamados quando existe incêndio.

  • Está proibido (inutilmente) cobiçar a mulher (e o marido) do próximo.

  • Porque se cobiça, é óbvio.

  • E também está comandado honrar pai e mãe, porque, imagino, até os escritores sagrados sabiam sobre Édipo,
  • a sinistra mistura de ódio e desejos proibidos que estão misturados nas relações entre pais e filhos.

  • E se está proibido matar e roubar é porque estes desejos estão bem vivos dentro da gente.

  • A proibição revela sempre a presença do seu oposto, no lado do avesso, escondido.

  • Vai isto como introdução à continuação de nossas meditações demonológicas, já iniciadas.

  • Para absolver o Diabo de uma acusação injusta que sempre se lhe faz, de que ele coloca desejos impuros
  • na cabeça dos pobres mortais.

  • Nada mais longe da verdade.
  • Este poder não lhe foi concedido.

  • Não se pode colocar um desejo no coração de ninguém.
  • O que se pode fazer é abrir as portas para que os que já existem, trancados e silenciados, apareçam na sala de visitas
  • onde os convivas, na companhia grave de clérigos e princípios de moral,
  • falam sobre as coisas com as quais todos concordam e que
  • não fazem ninguém enrubescer.

  • O Diabo não joga porcaria dentro da fonte.
  • Ele só mexe no lodo que repousava no fundo da água limpa.

  • E aí começam a surgir sapos, cobras, escorpiões - e o rosto de Narciso vira coisa feia.
  •  Mas não é só isto que as artes do Diabo fazem aparecer.

  • O fundo das águas é lugar encantado, onde moram também lindas criaturas, sereias, iaras, borboletas de asas coloridas,
  • gaivotas plainantes no ar, barcos à vela entrando no mar, e até mesmo uma bela adormecida.

  • Vivem lá, submersas, esquecidas...

  • Mas quem as submergiu?

  • Nós mesmos. Algumas, por serem feias demais.

  • Foram escondidas por vergonha, como antigamente se escondiam os urinóis nos criados-mudos.

  • Outras, por serem belas demais, ousadas demais, livres demais, e faltar-nos coragem para tomá-las como companheiras:
  •  por medo de voar, por medo de navegar, por medo de amar.

  • A beleza faz convites que assustam...
  • Pois é só isto que o Diabo faz: ele acorda os desejos que já moravam em nós.
  • Ele não bota o ovo.
  • Só quebra o ovo que nós botamos, para ver o que tem lá dentro, se vida ou morte.

  • Sutil.
  • Sutilíssimo.
  • Os textos sagrados dizem que a serpente era a mais sutil de todas as criaturas que Deus havia colocado no Jardim.
  • Escorrega com fala mansa até o lugar onde moram os nossos desejos.

  • Cheguei a pensar que ela foi o primeiro psicanalista, pois ambos estão à procura da mesma coisa:
  • os desejos esquecidos.

  • É aí que começa a segunda parte da sua tarefa.
  • Primeiro soltou os desejos.
  • Depois, como sutil testador, nos coloca a questão: "Você sabe que não é possível ficar com todos.

  • É preciso escolher. Se você tivesse de rejeitar todos, menos um, qual seria o escolhido?
  • Onde está o seu coração?
  • Qual é a sua verdade?"

  • E começa a fazer como os oftalmologistas que colocam uma lente e depois outra no nosso olho e dizem:
  • "Esta ou aquela?" O que é que você ama mais?

  • Qual é a sua verdade?
  • E nos vai despetalando, como quem despetala uma flor, para ver o que sobra, para ver o que somos. Pois somos o que desejamos.

  • A alma é um espaço onde se ouvem as mais distintas melodias, selvagens ritmos de tambores, cósmicos corais gregorianos,
  • bandas de rock metaleiro, flautas doces, canções de ninar, canções de amar, marchas militares - tudo ao mesmo tempo.

  • E o Diabo nos faz decidir: "Esta ou aquela?" Afinal, qual é a sua?
  • E chegamos então a esta estranha conclusão:
  • o testador está a serviço do amor. Vai nos obrigando a decidir.

  • Na medida em que decidimos, os contornos de nosso rosto vão ficando cada vez mais claros,
  • refletidos na água das fontes.
  • Álvaro de Campos tem um verso que diz mais ou menos assim:
  • "Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim."

  • Intervalo, um espaço indefinido onde a minha verdade se perdeu, enfeitiçada pelo pedido dos outros.

  • Os outros pedem que não sejamos o que somos; que sejamos só o que eles desejam.

  • E ficamos sem rosto. Só máscaras. Cebolas sem cerne, só casca.
  • O Diabo nos coloca entre o martelo e a bigorna e vai nos forçando a tomar decisões.

  • Pode ser que, ao final, tenhamos a experiência suprema de horror.

  • Quando, diante do espelho, não vemos rosto algum, apenas os rostos de outros.

  • Acho que é por isto que todo mundo fala mal do Diabo:

  • porque, além de ser ferreiro de martelo e bigorna,
  • é também especialista em beleza, com espelho na mão.

  • E o reflexo no
  • espelho dói mais que o martelo na bigorna...

3 comentários:

  1. Maravilhosa analogia, amiga!!!!
    Nossa, amei teu texto.
    bjs

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  2. Texto muito profundo, que nos mostra nossas verdadeiras faces,medos e anseios
    Beijos e um ótimo dia pra você!

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Rejane

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