"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)



“Presos ou soltos, nós, seres humanos, somos muito cegos e sós. Quase nunca conseguimos transcender os nossos estreitos limites para enxergar os outros e a nós mesmos sem projetar o nosso próprio vulto na face alheia e a cara dos outros na nossa.”

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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

REFLEXÕES PSICOTERAPÊUTICAS SOBRE UM GIRASSOL


Davy Bogomoletz


O que é o útero senão um solo? O que é o solo senão um útero? Em ambos, colocada a semente, nasce algo. Em ambos algo se cria. SE cria. O útero e o solo nada criam. Nada fazem. Apenas PERMITEM. AJUDAM. POSSIBILITAM. As sementes trazem a sua capacidade criativa/criadora embutida. Faz parte da semente ser criativa. Se não é criativa, não é semente. Basta-lhe o ambiente propício para ela germinar, e germinar quer dizer modificar-se para transformar-se em algo bem maior que ela mesma. O solo e o útero sabem disso. Não precisam de ninguém que Ihes ensine. Não precisam de universidade ou sociedade profissional onde se especializar em locais onde algo se cria. 


Claro, não se pode comparar uma psicoterapia ao que acontece dentro de um útero ou de um solo. O consultório sozinho de nada servirá. Tem que haver um psicoterapeuta lá dentro. E o psicoterapeuta é alguém que, como o agricultor, apenas ajuda o solo/útero a fazer seu trabalho.


O agricultor rega o solo. Aduba-o. Afofa-o. A mulher ajuda o útero alimentando-se, cuidando-se, fornecendo ao útero o que este precisa. Mas a mulher e o agricultor não PROVOCAM o trabalho do útero/solo, nem PRODUZEM aquilo que deles surgirá. O psicoterapeuta não CURA o paciente. Apenas lhe proporciona um tipo de ajuda muito especial. O psicoterapeuta SABE o que atrapalha o paciente/semente de criar a si mesmo. E o ajuda a livrar-se disso que atrapalha. Dizendo as coisas que diz, ou calando-se para deixar o paciente/semente se expressar, se manifestar, o psicoterapeuta alimenta/aduba, possibilita/afofa o solo/útero de que o paciente precisa. Porque, se o paciente não precisasse dessas coisas, não estaria lá, no consultório. Se o paciente não fosse uma semente que não teve chance de germinar por inteiro, não precisaria do psicoterapeuta. Se, por alguma razão, a mãe não conseguiu ajudar o bebê/semente a germinar e criar um ser humano, o psicoterapeuta pode ajudar.

No universo da psicoterapia há um termo errado: tratamento. Não se trata de tratamento. O paciente não está doente. O paciente é um ser que só cresceu do lado de fora. O lado de dentro continua uma semente. Que deve brotar no interior do paciente, assim como a semente brota no interior do útero/solo. Não é necessário FAZER o ‘dentro’ do paciente crescer. Basta AJUDAR. E ajudar significa: aceitar o fato de que o paciente ainda não cresceu. E colocar-se em contato com ele para que ele cresça.

Um outro ser humano funciona como útero depois que o bebê nasce. Pode ser a mãe. Mas tem que uma ‘mãe’. Como é a ‘mãe’? Quando a criança chega em casa suja da rua, o pai diz: ‘Vai se lavar’. A mãe diz: ‘Vem, eu vou te lavar’. O pai aponta o erro. A mãe aponta a solução. Então é preciso ser ‘mãe’ para ajudar a crescer. Porque crescer não é aprender a fazer certo. Crescer é descobrir como fazer certo. E descobrir só é possível com calma. Sem pressão. Sem culpa e sem vergonha. Criando um ambiente sem fazer pressão, o terapeuta cria o ambiente em que o paciente cresce. Como um útero, que nada pede e nada impõe. Apenas dá o que é necessário. É claro que dá trabalho - e como! Mas é isso, ou nada. FAZENDO o paciente crescer nós apenas o levaremos a se tornar parecido com o que consideramos bom.

Ele aprenderá a imitar os comportamentos que nos agradam, e a evitar aqueles que não nos agradam. Isso não fará dele um ser humano. Fará dele um clone. É que um ser humano é sempre original. Claro, aprende a jogar o jogo que todos jogam, mas essencialmente é original. E é a parte original que conta. Todo psicoterapeuta sabe disso a partir de si mesmo. Então por que com o paciente seria diferente? Não se pode ensinar ninguém a ser original. É necessário apenas compreender a importância dessa originalidade, e deixá-Ia brotar. É preciso entender que ser humano é algo único, irrepetível. Original. Quando plantamos girassóis, é girassóis que desejamos colher.

Quando um paciente se planta em nosso consultório, é um ser humano que desejamos que brote -, e nós não podemos colhê-lo, é ele que colherá a si próprio. Caso contrário não acontecerá uma psicoterapia, mas uma lavagem cerebral. Precisamos cuidar do paciente/semente, cuidar para que tenha suficiente água e bastante nutrientes, evitar que as ervas daninhas o sufoquem ou roubem dele o alimento e a água. Isso nós podemos fazer, e fazemos. Mas não FAZEMOS o paciente/semente brotar, nem crescer. ESPERAMOS QUE SUA PRÓPRIA NATUREZA CRESÇA E AMADUREÇA. Aí sim, agindo desse modo, estaremos permitindo que o girassol/semente se torne um girassol planta. Sem tentar fazê-lo tornar-se rosa, ou cravo, ou margarida. Ele cresce para ser ele mesmo. Ah, sim, depois ele poderá aprender qualquer coisa. E aprenderá rápido, mais do que se lhe ensinássemos. Se imaginarmos que o girassol sabe tornar-se inteiro, ele se tornará. Se imaginarmos que o bebê sabe tornar-se um ser humano, é o que acontecerá. E como é bonito quando isso acontece.





Fonte: http://www.redepsi.com.br/

3 comentários:

  1. Muitas vezes basta ser:
    colo que acolhe,
    braço que envolve,
    palavra que conforta.

    Beijo.

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Muito obrigada pela visita.
Volte sempre!!
Rejane

"Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma... Todo o universo conspira a seu favor!" - Goethe "Sou sempre eu mesma,mas com certeza não serei a mesma para sempre!" Clarice Lispector

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