"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)




segunda-feira, 15 de junho de 2009

Crescer ou não crescer?

Complexo de cinderela




  É a ambivalência entre a independência e a necessidade de ser amada. É como se as duas necessidades não pudessem existir, surgindo o conflito entre uma e outra. É a dependência emocional, ou seja, o desejo inconsciente de obter cuidados de outra pessoa (necessidade de dependência) e o medo da independência, de ficar sozinha.Complexo de Cinderela é um conjunto de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciam na infância, na crença da menina de que sempre haverá uma outra pessoa mais forte para protegê-la.

Fomos criadas para depender de um homem e ficarmos apavoradas sem ele. Esta crença vai se solidificando, formando raízes, mantendo na mulher adulta um sentimento de incapacidade e inferioridade, que dificulta a consciência de suas mais profundas necessidades e desejos, pois inconscientemente os sabota e assim, permanece dependente.

Ao mesmo tempo em que desejamos nos libertarmos, também desejamos a salvação. Como Cinderela, as mulheres ainda esperam por algo ou alguém externo, que venha transformar suas vidas, ou seja, que venha salvá-las, como se fossem incapazes de salvar a si mesmas. O conflito existe entre o profundo desejo de ser protegida e cuidada, e sua necessidade em ter sua liberdade conquistada.

Crescer é um estado de espírito. Muitas vezes a pessoa se pergunta o quê faz ela ir para frente e enfim crescer ou o quê  trava o seu crescimento. Poderia registrar-se aos milhares, possivelmente, as combinações de situações ou as mais fundamentadas teorias sobre o que faz qualquer crescimento acontecer ou ser impedido, mas a questão toda é que só cresce quem está disposto a crescer.

O primeiro e definitivo passo rumo ao crescimento é o desejo de crescer.

A autora COLLETE DOWLING segue descrevendo esse fenômeno como “Complexo de Cinderela”, que ocorre quando há um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciaram na infância, na crença da menina de que sempre haverá alguém para sustentá-la e protegê-la. Independentemente do vigor investido na tentativa dessas mulheres viverem como adultas, a menininha dentro de cada uma sobrevive assombrando seus ouvidos com murmúrios assustados. Essa crença se solidifica na medida em que vai sendo alimentada com o tempo, mantendo na mulher um enorme sentimento de inferioridade, causando insegurança com amplos efeitos, que resultam em todas as espécies de medos interiores e descontentamentos, onde as mulheres tendem em geral a funcionar muito abaixo do nível de suas habilidades básicas.

Elas passam então a desejar profundamente serem cuidadas por alguém e aliviadas das responsabilidades essenciais para consigo mesmas. Surge uma necessidade e fixação no outro. O que inibe de todas as maneiras a capacidade feminina de trabalhar produtivamente, de comprometer-se com a atividade e obter prazer com ela. Há um mito onde se acredita que a salvação está em estarem ligadas a alguém. Precisar trabalhar pode ser para elas um sinal de que, de alguma forma falharam como mulheres. Dowling (1981) esclarece que “Nem todas as mulheres sofrem o medo em seu grau agudo ou fóbico. Para a maioria delas ele é uma coisa difusa e amorfa, algo que vai corroendo as bases sem dar mostras”. Há uma tendência dessas mulheres revelarem em sua infância a necessidade de se mostrarem autoconfiantes e controladoras de seus sentimentos. Quando crianças procuram desenvolver as habilidades e qualidades que lhes oferecerão a ilusão de força e invulnerabilidade. Na fase adulta procuram empregos que reforçam a imagem de auto - suficiência. O atributo neurótico surge quando o impulso para a realização se transforma numa compulsão, quando elas não podem não realizar.

Tendem então a construir uma fortaleza por trás da qual possam esconder sua insegurança e medo. Passo a passo, ano a ano uma espécie de fachada contrafóbica vai sendo desenvolvida. As características básicas que o quadro apresenta são de uma pessoa dominadora, mandona, segura de si própria, querendo controlar de alguma forma o meio a sua volta. Sentem necessidade de articularem e definirem tudo. Em geral possuem presença marcante. As mulheres contrafóbicas têm dificuldades em se relacionarem positivamente, pois sentem necessidade de se sentirem superiores, de estarem “com o controle nas mãos”. Essa imagem de autoconfiança projetada são basicamente dominadas pelo medo, mascarando seus sentimentos básicos de insegurança e desamparo.

Esse é “... um modo pseudo-independente que finge possuir auto-suficiência quando, na verdade, por dentro a pessoa é tímida, incerta sobre tudo e temerosa demais de perder a identidade, a ponto de nem ser capaz de se apaixonar.” ( COLLETE DOWLING, 1981, p.69) Quando chega a idade em que supostamente as mulheres estão aptas para o casamento, muitas delas que são excessivamente dependentes acham difícil, senão impossível manter a farsa do ser forte.

Durante a adolescência elas conseguiram mais facilmente manter a máscara e alimentar sua dependência, mas agora elas já não anseiam mais por isso. Procuram uma situação na qual possam abandonar sua fachada de auto-suficiência e retornar àquele estado aconchegante da infância que é sedutor para as mulheres, o seu lar. Dessa maneira a circunstância torna-se ideal para uma “vencedora”, pois sua motivação para abandonar toda vida profissional, é o de tornar-se uma dona-de-casa. Sua disposição de a tudo renunciar pela segurança, não dura muito, pois freqüentemente as mulheres descobrem que o casamento não lhes traz o tão sonhado objetivo.

O “ajustar-se ao papel de esposa” igualmente envolve a renuncia às habilidades individuais. A chave dos grilhões de várias mulheres casadas hoje reside no fato de que não teriam meios de sustento próprio, já que quaisquer habilidades que possam ter desenvolvido antes de se casarem há muito se atrofiaram. (COLLETE DOWLING, 1981, p.140) Para muitas mulheres o sentimento do desespero lhes fornece coragem para ousarem a ultrapassarem a fronteira do conhecido e aventurar-se a mudarem suas vidas. Quando começam a perceber o quanto contribuem para sua própria fraqueza e vulnerabilidade, nutrindo e defendendo sua dependência, essas mulheres começam lentamente a sentirem mais força.

Passam a enfrentar seus conflitos e buscam suas próprias soluções, ganhando assim maior liberdade. Ao assumirem suas responsabilidades, deslocam o centro da gravidade do Outro para o Eu.

Gradualmente ficam menos inibidas, menos invadidas pelo medo e pela ansiedade, menos artomentadas pelo autodesprezo. Passam a ter menos medo dos outros. Tem menos medo de si mesma. Aprendi que a liberdade e a independência não podem ser arrancadas dos outros – da sociedade em geral, ou dos homens - , mas podem ser ativamente desenvolvidas desde dentro.

Para alcançá-las, teremos que renunciar às dependências que vimos usando muletas para sentir-nos seguras. E, no entanto, a troca não é tão perigosa. A mulher que acredita em si mesma não precisa enganar-se com sonhos vazios, com coisas que estejam além de suas capacidades. Ao mesmo tempo, ela não vacila em face das tarefas para as quais se acha preparada. Ela é realista, segura e ama a si própria. Ela está finalmente livre para amar os outros, porque ama a si mesma. Todas estas coisas, e nada menos que elas, constituem a mulher que se libertou. (COLLETE DOWLING, 1981, p.203)

Conclusão  :  Subjugada ao domínio masculino ao longo de 10 mil anos de patriarcado, em pouquíssimo tempo, a mulher muito já conquistou, mas não se libertou por completo, os valores vigentes ainda são o do princípio masculino. Sentimento de inferioridade e necessidade de pertencer ao outro ainda permanecem. Essa busca pela sua essência feminina, ou seja, pela sua independência emocional é uma tarefa bastante difícil e dolorosa por ser uma descoberta individual e solitária. Cada mulher terá que enfrentar seus próprios grilhões e sem um modelo feminino a seguir, pois, em geral, não há no seu familiar um modelo de mulher que tenha conquistado tanto o mundo de fora como o de dentro. Desta forma, a mulher luta sem bem saber como e insegura, ficando, muitas vezes, ligada à figura do outro, pois o ranço da cultura patriarcal ainda está em seu inconsciente.

Nesse processo de mudança, a mulher terá que dar luz ao que foi obscurecido, colocando em pauta suas reais necessidades e anseios, como um exercício diário e constante.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: 1. Carter, B. e McGoldrick, M. (colaboradores) “As mudanças no ciclo de vida familiar, uma estrutura para a terapia familiar”. 2a. edição. Porto Alegre: Ed. Artes Médicas, 1995.

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