"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)




segunda-feira, 11 de novembro de 2013

D e l i c a d e z a s

                        Por :  Valéria Montenegro

Estava  decidida  a  arrancar  a  planta  inútil.  Comprada  em  lugar  especializado,  escolhida  entre  outras  mais,  para  ficar  ao  lado  do flamboyant   de  jardim,  simplesmente  ela  se  manifestara  como  uma  grande  decepção.

Em  quase  um  ano  de  plantada  e  regada  a  contento,  mantinha-se  feia,  escassa,  desfolhada,  sem  a  profusão  de  cachos  brancos  que  uma  similar,  exposta  no  mesmo  canteiro,  prometia  e  anunciava.  Enfim,  um  fracasso.  Chegava  a  envergonhar  o  conjunto,  tão  disforme  e  depenada  ao  lado  da  árvore  principal,  que  se  manifestava  festiva,  em  bagos  que  se  abriam  em  caramanchões  de  amarelo.

Resolvi,  de  pronto,  sacrificá-la,  ainda  tão  irrelevante,  dentre  as  primícias  do  novo  reino.  Puxei-lhe  o  caule,  aparentemente  frágil.  Outra  vez  e  outra  mais,  com  mais  esforço  a  cada  uma.  Nada.  Recusava-se  a  sair  do  chão.  Parecia  muito  enraizada,  apegada,  resolvida.  Desisti.

Não  sei  quanto  tempo  depois,  a  revelação:  começaram  a  pipocar  cachos  novos,  alternativos  inclusive  ao  tronco  principal,  ainda  tão  esguio.  Cachos  de  flores  miúdas,  muito  brancas,  muito  lindas.

Enfrentou  o  primeiro  inverno  depois  da  metamorfose,  com  galhardia  e  destemor.  Suportava  chuvas  intensas,  que  lhe  vergavam  os  tenros  galhos,  em  cujas  pontas  as  flores  miúdas  se  faziam  pesadas  demais  para  serem  carregadas  assim,  tão  molhadas.  E,  no  começo  do  novo  verão,  com  alguma  aguação  meio  descuidada,  continuou  o  seu  progresso,  espessando  tronco  e  multiplicando  ramos  e  cachos  e  flores.

Não  tem  nome  a  planta,  nem  na  casa  de  jardinagem  souberam  dize-lo.  Chamo-a  de  pipoca.  Tão  linda,  tão  delicada  e  tão  forte.  Já  não  faz  vergonha  junto  ao  pequeno  flamboyant  amarelo.  Ao  invés.  Combinam.  Fazem  par,  entrelaçam-se  em  harmonia.

Uma  vez,  neste  mesmo  jardim,  aconteceu  com  a  jabuticabeira.  Plantada  ao  mesmo  tempo  que  as  outras  árvores  frutíferas,  já  crescidas  e  prontas  para  a  maturidade  precoce,  ela  não  reagia  aos  cuidados,  aos  muitos  banhos,  às  costumeiras  podas.  Disse   eu   então,  na  frente  das  outras,  elogiando  as  flores  perfumadas  da  laranjeira :  Esta  jabuticabeira  não  agradece  nada !!!

Como  por  encanto,  pouco  tempo  depois,  ela  começou  a  cobrir-se  de  nova  folhagem  encorpada  e  abundante . . .  e  sem  avisar,  veio  a  penugem  branca,  os  frutos  verdes,  que,  de  ora  para  outra,  materializaram-se  em  belas  e  deliciosas  jabuticabas . . .

Nas  duas  vezes,  os  acontecidos  foram  absolutamente  espontâneos.  Fui  sincera  com  elas.  Responderam  do  seu  modo,  que  me  causaram  profunda  emoção  e  prolongada  meditação . . .

Será  assim  também  com  as  almas  humanas?  Ou,  ao  menos,  com  algumas  delas ?
Algumas  negam  resposta,  deixam-se  arrancar  como  se  fossem  mesmo  inúteis  e  inexpressivas,  dos  jardins  da  vida.  Outras,  estimuladas  pelo  desafio  ou  pelo  perigo,  ou  mesmo  pelo  insulto,  reagem  com  florescimento,  frutificação  e  beleza . . .






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