"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)




terça-feira, 9 de julho de 2013

Reflexão sobre o Feminino (Entendendo a Mulher)








por Flávio Gikovate




Talvez agora sejamos capazes de pensar de forma mais livre sobre a mulher e a condição feminina. O tema sempre esteve envolto em brutais preconceitos: no passado vigia a tese machista da inferioridade da mulher, já nos últimos anos temos sido governados pela idéia da igualdade entre os sexos. O bom entendimento da questão perde nos dois casos, uma vez que a mulher não é inferior e nem igual ao homem, mas sim diferente, não havendo razão para que seja estudada tomando-se como referência a condição masculina. Não deixa de ser surpreendente o fato de que nos deixamos governar muito mais por idéias, concepções e ideologias do que pelos fatos. As diferenças entre os sexos são óbvias e só mesmo a interferência de poderosos ingredientes emocionais pode levar homens e mulheres a defender idéias que não têm respaldo no mundo real. Quando tais idéias foram elaboradas por homens, ao longo dos séculos, a conclusão foi a inferioridade da mulher. Talvez tenham sido movidos mais do que tudo pela enorme inveja que eles sempre sentiram delas.
Quando, nas últimas décadas, as idéias sobre o tema foram elaboradas por mulheres, concluíram pela igualdade entre os sexos. Elas buscavam condições objetivas iguais às dos homens, o que é inegável direito, mas acabaram por generalizar suas concepções relativas a importantes aspectos da vida social, tentando, por exemplo, entender a sexualidade feminina tomando por base a fisiologia dos homens. Sem perceber, elas os usavam como referência, como paradigma; não podemos deixar de reconhecer aí importante ingrediente invejoso da condição masculina, agora presente também nas mulheres.
Infelizmente, tudo leva a crer que falar sobre as condições masculina e feminina é tratar, muito de perto, da questão da inveja. Homens e mulheres são fascinados uns pelos outros – isso como regra geral, é claro –, mas dificilmente conseguem se entender bem. Percebemos a facilidade com que desenvolvem uma irritação desproporcional aos fatos quando convivem intimamente. Até mesmo a vida sexual dos que vivem juntos está muito aquém do que poderíamos supor a partir da intensidade da atração sexual que o homem tem pela mulher e que faz tão bem a ela. Assim, o esperado convívio amoroso e sexual, rico e pleno de prazeres, é, como regra, parte do imaginário da maioria das pessoas. Todo o objetivo daqueles que pensam sobre esses aspectos essenciais da vida íntima consiste exatamente em buscar os caminhos que permitam o entendimento entre os sexos, o qual, de fato, nunca existiu. A tarefa deve ser muito difícil, se assim não o fosse nossos antecessores já a teriam cumprido há muito tempo.
Meu objetivo principal ao longo desse texto é discutir alguns aspectos da fisiologia sexual feminina e sua repercussão na interação entre os sexos e na maneira de ser das mulheres. Não poderei deixar de fazer algumas observações sobre o masculino, uma vez que, ao menos até agora, o modo de ser de um sexo tem sido definido a partir do outro. Não creio que seja uma boa postura intelectual essa de, por exemplo, atribuirmos emotividade e maior sensibilidade ao feminino, e considerarmos racionalidade e maior agressividade peculiaridades do masculino. Fica muito difícil saber o quanto isso é verdadeiro e o quanto os homens escondem sua emotividade e as mulheres sua racionalidade, sempre com o propósito de “caberem” no modelo social preestabelecido. Temos que distinguir com a maior clareza possível entre aquilo que é um atributo do feminino e o que é parte do seu papel social; isto é, entre o que seja genuinamente produto da natureza feminina e o que é proposição cultural que busca definir e impor uma certa postura para as mulheres de uma determinada época e cultura.
O ideal seria o feminino ser estudado à parte, sem qualquer tipo de comparação com o masculino e vice-versa. Talvez consigamos, aos poucos, atingir esse objetivo, condição na qual poderíamos, finalmente, saber como é constituído cada um dos sexos. Na realidade, porém, os homens se comportam com a finalidade única de impressionar, agradar ou agredir as mulheres, e o mesmo acontece com elas. É possível que uma parte importante do que entendemos por feminino esteja sendo definida em função do masculino e que o contrário também seja verdadeiro. Compõe-se um tipo de círculo vicioso derivado da interação entre os sexos que, por vezes, torna muito difícil o entendimento dos ingredientes aí envolvidos. Farei algumas considerações sobre o que sou capaz de observar e que considero imprescindível no círculo vicioso em que vivemos há milênios e do qual ainda não conseguimos nos libertar. As pesquisas, até agora muito escassas, que deverão ser feitas nessa área da subjetividade humana não são filigranas. Elas tratam de algumas das particularidades essenciais da nossa espécie e que influíram – e muito – em todos os processos que culminaram com a elaboração das regras que norteiam nossa vida social.
Assim sendo, a questão sexual em geral e a das diferenças entre os sexos em particular são de capital importância para o entendimento da psicologia humana – e de alguns aspectos da própria fisiologia sexual – e para o estudo e compreensão dos aspectos socioeconômicos da nossa vida em grupo. Essa abordagem mais abrangente da questão sexual tem assumido uma importância crescente, uma vez que tem se revelado muito mais frutífera do que aquela que apenas levava em consideração os aspectos práticos e técnicos capazes de aprimorar a intimidade entre um homem e uma mulher.
Deixarei registrado, de modo veemente, que o objetivo de todas as observações que pretendo fazer é contribuir para ajudar no entendimento e libertação de complexos ingredientes que consideramos parte da relação entre os sexos; como são procedimentos que se repetem há muitas gerações, fazem parte da nossa cultura de modo tão arraigado que os vemos como naturais; são tratados com a naturalidade de um fenômeno que é parte da nossa biologia, apesar de que é forte minha convicção de não ser essa a verdade. Hoje, indiscutivelmente, eles fazem parte do cotidiano, das normas da vida social com as quais nos deparamos à medida que vamos nos tornando adultos. Cada nova geração se contamina muito rapidamente com o círculo vicioso negativo e percebe, com maior ou menor clareza, que as relações entre os sexos são tensas, de disputa e implicam num tipo de rivalidade no qual humilhar o sexo oposto parece ter se constituído num prazer. Adolescentes de ambos os sexos, mas principalmente os rapazes, dão claros sinais de sentirem os golpes iniciais dessa guerra entre os sexos, cujos primeiros movimentos parecem mais favoráveis às mulheres – ou, ao menos, a algumas delas.
2. Considerações acerca da origem da guerra entre os sexos
O tema é excitante e fundamental e sobre ele venho publicando desde 1979. Confesso que foi só com o passar dos anos que me dei conta da importância de algumas das considerações que fiz na época. E a título de autocrítica, devo dizer que fui um tanto ingênuo por não ter percebido a relevância das minhas observações. O que diminui um pouco a sensação desagradável que essa constatação me provoca é o fato de que não fui o único a ter dificuldade em lidar com a questão das diferenças entre os sexos e principalmente extrair delas todas as suas conseqüências. O próprio Freud apontou o aspecto mais importante relativo às diferenças entre o masculino e o feminino – qual seja, o da existência de um desejo visual masculino que inexiste na mulher – em uma nota de rodapé de sua obra O mal estar na civilização, escrita em 1930. Jamais voltou ao assunto! Uma importante diferença entre os sexos consiste na ausência de período refratário após o orgasmo nas mulheres, diferentemente do que acontece com os homens, e quem primeiro a registrou foi Masters e Johnson; esses autores também não conseguiram extrair todos os desdobramentos que tão importante diferença impõe. É indiscutível a dificuldade que temos de estudar a nós mesmos!
Tentarei penetrar no círculo vicioso que determina a hostilidade recíproca entre homens e mulheres pelo ponto que considero o inicial: aquele que define as primeiras sensações dos homens diante da diferença entre os sexos que surgem junto com a sexualidade adulta. Registrei, há quase 20 anos, que a chegada dos primeiros impulsos eróticos mais intensos que, nos rapazes, acontece ao redor dos 13 anos – junto com o surgimento dos caracteres sexuais típicos da virilidade –, vem acompanhada de algumas sensações íntimas negativas e totalmente inesperadas. Os meninos crescem com a idéia de que são os privilegiados, uma vez que lhes ensinaram que o mundo é dos homens. O contrário acontece com as meninas, de sorte que muitas delas crescem revoltadas e invejosas da condição privilegiada que os meninos costumam ter em sociedades como a nossa. Com a chegada da puberdade, os rapazes passam a sentir enorme desejo sexual por um sem-número de moças, desejo este que pede a aproximação e o roçar no corpo delas. A grande e inesperada surpresa é que tal desejo não é correspondido. Por essa eles não esperavam! A partir daí, desenvolvem uma sensação de inferioridade, frustrando-se pela ausência de reciprocidade. Desejar sem ser desejado da mesma forma gera uma enorme frustração em praticamente todos os moços. Tal sentimento muito comumente acompanha os homens ao longo de toda a vida.
Em geral, os rapazes atribuem, até hoje, o fato de não serem objeto de desejo visual à sua “precária” aparência física. Portanto, o que é baixo, gordo, narigudo, entre tantos defeitos que os adolescentes vêem em si mesmos, sente-se não-atraente devido a essas desvantagens relacionadas com sua imagem. Entendem a questão como um fato particular, condição na qual ficam muito deprimidos e ressentidos. Para eles, outros rapazes provocam o desejo que na verdade eles mesmos gostariam de causar, podendo desenvolver grande hostilidade invejosa em relação aos mais bonitos e charmosos. Seguramente, a beleza masculina é um elemento capaz de despertar o interesse das mulheres, mas é fato também que existe uma grande diferença entre despertar o interesse e o desejo. Não sabemos como reagirão os moços quando puderem crescer e chegar à adolescência já de posse dos dados relativos à nossa sexualidade que só agora estão começando a nos ficar mais claros.

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