"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)




sábado, 18 de setembro de 2010

Quem é você de verdade?




"Dentro de cada um de nós existe uma semente adormecida que carrega nossa verdadeira essência. Despertá-la é o caminho mais seguro para sermos felizes e realizadas em todos os aspectos da vida."


"Eu não desenvolvo, sou."
 A frase, dita pelo mestre da pintura Pablo Picasso, pode parecer um pouco pretensiosa à primeira vista, mas, para o psicólogo americano James Hillman, reconhecido internacionalmente por suas pesquisas em psicologia analítica, corrente baseada nos estudos de Carl Gustav Jung, ela ilustra perfeitamente a ideia de que todas nós temos, em nosso interior, um gênio a ser despertado. Que fique claro: não estamos falando de uma super-heroína com capacidades extraordinárias, e sim de dons inatos que precisam ser identificados e desenvolvidos ao longo da vida para que encontremos nossa real vocação.
As palavras de Hillman, autor de O Código do Ser – Uma Busca do Caráter e da Vocação Pessoal (ed. Objetiva), traduzem a essência do seu trabalho, tão bem talhada na teoria da Semente do Carvalho. Segundo ela, da mesma maneira que a totalidade de um imenso carvalho está contida em sua pequena semente, o ser humano traz em si as potencialidades do que pode vir a ser. Também chamado de vocação, destino, caráter ou imagem inata, esse caldo de características é o que determina nossa singularidade e, de acordo com o autor, já está presente antes mesmo do nascimento.
“Mais cedo ou mais tarde alguma ‘coisa’ parece nos chamar para um caminho específico. Essa ‘coisa’ pode ser lembrada como um momento marcante da infância, quando uma urgência inexplicável, um fascínio, uma estranha reviravolta dos acontecimentos teve a força de uma anunciação: isso é o que eu devo fazer, isso é o que eu preciso ter. Isso é o que eu sou”, explica o autor.
O tal chamado, ou dedo do destino, de acordo com Hillman, vai além das características genéticas ou da influência do meio. É um mistério que nos leva a buscar a trama básica de nossa história. Para explicar sua teoria, o autor se baseia no Mito de Er, descrito por Platão em A República, no qual relata que nossa alma, antes mesmo de nascer, recebe um daimon (espírito ou anjo), que determina uma imagem ou um padrão a ser vivido por cada um de nós. Quando chegamos à Terra, esquecemos de tudo, mas o daimon nos lembra, pois ele é o portador de nosso destino.
Reconhecer o tal chamado, afirma o psicólogo, é primordial para a existência humana e conseguir alinhar a vida a ele é a melhor maneira de encontrar a felicidade. “O chamado pode ser adiado, mas com o tempo ele aparece, pois o daimon nunca vai embora”, afirma.
“Hillman preconiza a existência de algo que antecede e determina até mesmo qual óvulo será fecundado por qual espermatozoide, em determinado casal. Em outras palavras, quando nascemos, já trazemos a possibilidade de nos tornarmos nós mesmas. E a vida dará todos os sinais para que a individuação aconteça”, explica a psicóloga junguiana Sâmara Jorge, de São Paulo. “A forma como trilharemos esse caminho dependerá das experiências vividas, tanto interna, quanto externamente. É um processo em constante movimento e transformação”, ela diz.
De acordo com os seguidores de sua teoria, é na infância que os primeiros sinais da vocação aparecem. “Competente é aquele que faz o que lhe compete. Alguns têm o dom da música, outros são líderes natos ou ótimos leitores. Não existe alguém que não saiba fazer nada e já vemos isso na criança. Se formos capazes de dar os estímulos certos, o ‘gênio’ irá florescer”, afirma a terapeuta Lúcia Rosenberg, de São Paulo, responsável pela revisão técnica do livro. “Nesse sentido, a família, a escola, os valores e a cultura interferem, pois, se a semente é plantada em solo árido, ela não germina.”
Como saber se estamos no caminho certo?

Para Sâmara, encontrar a si mesma nesse emaranhado de influências é um processo natural, e não uma escolha. “Há pessoas que têm maior facilidade para permitir que sua essência se manifeste. Mas o processo de desenvolvimento da individualidade torna-se mais difícil quando não somos capazes de perceber os sinais que a vida nos dá e perdemos a conexão com nosso universo interno. Assim, se tudo se tornou muito difícil e nada parece dar certo, pode ser um sinal de que nos desviamos do caminho”, explica.
Em uma cultura como a nossa, se desviar do caminho tende a ser uma regra, e não uma exceção. O coquetel de influências que recebemos da família, dos amigos, dos professores, das crenças religiosas, de uma sociedade que valoriza extremamente o ter em detrimento do ser, enfim, de tudo que nos rodeia, é poderoso para obstruir o desenvolvimento pleno da semente que carregamos dentro de nós. “Essas influências podem gerar sentimentos de culpa, mágoa, insegurança, baixa autoestima, elementos que dificultam o desabrochar da verdadeira essência de cada um”, afirma o psicólogo Waldemar Magaldi Filho, de São Paulo, especialista em psicologia analítica e psicossomática.
No meio de tantos obstáculos, corremos o risco de nos tornarmos pessoas alheias aos nossos desejos mais verdadeiros e totalmente enquadradas em padrões sociais em que a diferenciação é carta fora do baralho. Assim, diante do novo, muita gente entra em crise e tende a negar sua própria vocação, pelo medo do que está por vir. “Esse movimento de defesa é comum e é a maior causa de transtornos psicossomáticos e doenças de toda a natureza”, explica Magaldi.
A dificuldade de encontrar a si mesma pode se manifestar por meio de diferentes sintomas, como a compulsão e o consumismo. “Essa (compulsão) é a principal razão que leva as pessoas a comprarem o que não precisam, com o dinheiro que ainda não possuem, para impressionar quem não conhecem e fingir ser o que não são. O autoengano é um grande opositor do autoconhecimento e o maior aliado dele é o medo da exclusão social”, continua Magaldi. Outro exemplo pode ser a dependência excessiva do que dita a moda, como forma de tentar se enquadrar no padrão vigente. “Na verdade, tudo o que fazemos para atender expectativas externas, coletivas ou familiares, para sermos aceitas sem levarmos em conta quais são nossos reais desejos, vontades, valores e conceitos pode ser considerado um sinal de que não estamos nos expressando verdadeiramente”, arremata a psicóloga Sâmara Jorge. O mais doloroso, porém, é quando o distanciamento de nós mesmas provoca uma angústia ou uma resignação que nos engessa. “Dá para sentir quando se está vivendo de forma resignada, quando é difícil encontrar ânimo para levantar da cama e ir para aquele emprego que não dá prazer, é entediante e nos deixa exauridas. Ou quando o relacionamento já não nos preenche e estamos dormindo ao lado de um estranho”, diz a terapeuta Lúcia Rosenberg, citando alguns exemplos.

Por onde começar a mudança

De acordo com a especialista, o primeiro passo para romper esse ciclo de insatisfação é tentar reconhecer a baixa sintonia com os próprios desejos. “Esconder um sentimento é aumentar sua força um milhão de vezes, diz o zen-budismo. Por isso, algumas pessoas insatisfeitas com sua vida se tornam amargas e, às vezes, até invejosas. Não é o sucesso do outro que gera inveja, mas essa paz de espírito que é alcançada por quem teve coragem de correr atrás de seu sonho e colher seu fruto maduro”, avalia.
Já para Magaldi, nesse momento é importante perguntarse: quem eu sou de fato? Qual o sentido da minha vida? Estou servindo a quê? Das coisas que me ocupam, o que é meu e o que me foi imposto, consciente ou inconscientemente, pela sociedade, família e por crenças arcaicas? “É muito doloroso encarar os defeitos e as imperfeições. O aprimoramento é uma tarefa contínua e exige autoaceitação, sem a qual não pode haver autoestima, segurança e amor-próprio”, diz.
Outras questões a serem levantadas, de acordo com Sâmara, estão relacionadas ao que se busca realizar: quais são meus reais desejos, sonhos, fantasias, vontades? O que estou fazendo para que a vida caminhe? É hora de olhar para dentro de si e descobrir não apenas suas próprias qualidades, mas os valores que estão pautando sua vida.
“Muitas pessoas, mesmo infelizes, sentem medo ou se recusam a fazer as mudanças necessárias. Isso porque, apesar do sofrimento, há um certo conforto em viver no que já conhecemos. A vida pressupõe movimento, mudanças e revisões, portanto, resistir às mudanças é impedir o seu fluxo e, consequentemente, o processo de tornar-se você mesma”,
diz. Você pode imaginar que, diante do caos urbano e do mundo globalizado, que exigem cada vez mais rapidez e segurança, fazer um balanço da vida é nadar contra a maré. Mas, na opinião dos especialistas, buscar sua verdadeira essência é a melhor maneira de sobreviver às pressões.

Conhecer-se para encontrar-se


Segundo Lúcia Rosenberg, quando alguém encontra seu caminho na vida é como se florescesse. “Quanto mais perto a pessoa estiver de sua alma, mais feliz e realizada ela será, porque terá desenvolvido toda sua alegria e criatividade. É preciso ter muita humildade e coragem para conhecer-se e mudar o que não está bom. Seguro é quem lida bem com suas inseguranças. Quando você conhece seus defeitos e limites, não fica confinada a eles”, diz.
Agora, você deve estar se perguntando como empreender uma transformação desse porte. Afinal, falar é uma coisa, mudar de verdade é outra totalmente diferente. Uma das maneiras de trilhar o caminho, às vezes tortuoso, do autoconhecimento é fazendo terapia: “Quem busca a análise não quer modificar-se, mas tornar-se quem é de fato para ser feliz”, afirma a psicóloga.
Existem outras formas de autoconhecimento, é claro. Porém, o ponto de partida para essa viagem rumo ao desconhecido é a percepção de que algo novo dentro de você deseja germinar e dar frutos, com sabores até então desconhecidos.







2 comentários:

  1. "Quanto mais perto uma pessoa estiver de sua alma, mais feliz e realizada será..." eu acredito mesmo nisso. Também acho a teoria da Semente do Carvalho, tão clara quanto o sol. O problema é descobrirmos esse talento, esse dom. Muitas pessoas acreditam que um dom tem que ser algo inusitado, brilhante, surpreendente, quando na verdade, um dom pode ser tão somente uma habilidade simples como a de "ouvir" as pessoas, ou contar histórias pra crianças, cuidar de bichos... enfim, algo nada glamuroso, mas que vc faz como ninguém.Por mais simples que seja, por seu seu dom, desenvolvê-lo nos fará felizes como nada mais o faria.
    Um ótimo post, uma leitura muito interessante.
    Beijokas.

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  2. oi, Rê

    Como sempre, traz textos excelentes para a reflexão interior.
    Lendo este texto, voltei para dentro de mim, e sabe o que encontrei? Nada.
    Significa que desviei do caminho, perdi-me e não me encontrei até agora...

    bjs

    Má.

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Rejane

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