"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)



“Presos ou soltos, nós, seres humanos, somos muito cegos e sós. Quase nunca conseguimos transcender os nossos estreitos limites para enxergar os outros e a nós mesmos sem projetar o nosso próprio vulto na face alheia e a cara dos outros na nossa.”


"Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma... Todo o universo conspira a seu favor!" - Goethe





"Sou sempre eu mesma,mas com certeza não serei a mesma para sempre!"



Clarice Lispector



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Narciso acha feio o que não é espelho.


“Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto/ Chamei de mau gosto o que vi de mau gosto, mau gosto...”



Narciso acha feio o que não é espelho.
Por Letícia Capriotti

*A mitologia nos conta a história de Narciso, belo jovem pelo qual muitos se apaixonam, mas que rejeita qualquer relacionamento. O jovem que um dia se depara com a própria imagem refletida no lago e por ela se apaixona. Uma história de amores impossíveis, de imagens que enganam e sobretudo uma história que fala de auto-conhecimento e transformação. Sim, e a transformação é muito importante, pois não podemos esquecer que essa história aparece no livro “As Metamorfoses” de Ovídio que relata, entre outras tantas metamorfoses da mitologia também a de Narciso. Vamos olhar mais de perto alguns aspectos desse mito e o que ele pode nos dizer a respeito da natureza humana.


Penso que nessa história há dois narcisos diferentes: aquele que é o jovem do início do mito e aquele que é flor, aquele que passou pela metamorfose. Comecemos falando do primeiro.

Ovídio nos conta em “As Metamorfoses” que Narciso era um jovem de beleza sem igual, cujo rosto é comparado a uma estátua de mármore de Paros. Conta também que muitos jovens e muitas jovens o desejavam, “mas tanta – tão rude soberba acompanhava suas formas delicadas – nenhum jovem, nenhuma jovem o tocara”. Narciso rejeita e repele com especial rudeza a ninfa Eco, que por ele perdidamente se apaixonara.

Paremos a história aqui e observemos algumas características desse jovem Narciso: ele é alguém que basta-se a si mesmo, rejeitando “com rude soberba” qualquer contato amoroso com o outro. Junito Brandão nos lembra que Narciso foi descrito como “extremamente belo, mas orgulhoso para com Eros e em relação àqueles que o amavam”. De tão centrado em si, Narciso rejeita o envolvimento erótico com o outro, e isso é uma violência contra Eros.

              
Temos a imagem de um jovem duro e impenetrável – assim é o Narciso do início da história. Essa imagem da dureza, da impenetrabilidade é reforçada pela comparação de sua beleza com uma estátua de mármore. Para esse Narciso não há o outro, há apenas ele próprio.

O DSM IV descreve aqueles que sofrem do Transtorno de Personalidade Narcisista como tendo “um padrão invasivo de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia”. Entre outras coisas, como atitudes arrogantes e insolentes, cita também como características da personalidade narcisista uma crença de ser “especial” e único, possuindo expectativas irracionais de receber um tratamento especialmente favorável ou obediência automática às suas expectativas, além de serem insensíveis, superficiais e não-empáticos. Essa última característica me chama atenção. A ausência de empatia, a relutância em reconhecer ou identificar-se com os sentimentos e necessidades alheias. Como acabei de dizer sobre Narciso: de tão centrado em si, rejeita o envolvimento com o outro. As patologias descritas nos manuais de psiquiatria sempre existem em maior ou menor grau em todos nós, então vale a reflexão: Quantas vezes não fazemos isso em nossas vidas? De tão centrados que estamos em nós mesmos, em nossos problemas e alegrias, temos dificuldade em perceber sentimentos e necessidades alheias. Queremos (ou até acreditamos) que o mundo gire ao redor de nossos umbigos. E isso se dá tanto no plano individual quanto no coletivo. Como é fácil, centrados em nossas crenças, acusarmos o outro (de outra religião, de outra crença, de outros povos) de coisas que não nos damos conta de fazer também...

Voltando ao mito, é justamente a dificuldade que Narciso tem com a alteridade, a dificuldade em se relacionar e se colocar no lugar do outro que desperta a raiva de todos à sua volta e que culmina com a maldição de Nêmesis: “que ele ame e não possa possuir o objeto amado”. Realmente, quem (tendo um dia se relacionado com um narcisista) nunca se sentiu tão rejeitado, tão incompreendido por alguém que desejou: “tomara que um dia você possa sentir o mesmo que estou sentindo”. – uma maldição que pode ser uma bênção, pois pode propiciar a metamorfose.

E aí então Narciso se depara com a própria imagem refletida no lago e se apaixona. É interessante esse trecho da narrativa de Ovídio, pois existem dois momentos distintos: num primeiro momento, Narciso não percebe que é sua própria imagem que vê (como quando passamos distraídos por nossa imagem refletida num espelho e nos assustamos, achando que tem alguém ali) e depois ele se dá conta, ele percebe que está vendo a si mesmo.

Esse para mim é o momento crucial da história. É o momento em que aquilo que Tirésias havia previsto se realiza. Tirésias fora consultado por Liríope (mãe de Narciso) com a seguinte pergunta: Narciso viveria muitos anos? A resposta foi: Se não se conhecer... Se não se vir...

Quando vê aquele belo jovem diante de si, Narciso não reconhece ser sua própria imagem – claro, pois não se conhece! É no momento de insight em que percebe tratar-se de si próprio que o que Tirésias havia previsto se concretiza: depois daquilo, ele já não pode mais ser o Narciso que era. Antes podia ser um jovem frio, insensível e distante. Depois dali ele precisa mudar... A transformação... A metamorfose.

Muitos dizem que Narcisismo é excesso de amor próprio, excesso de auto-estima. Penso que é justamente o contrário. O narcisismo é a condição na qual uma pessoa não se ama (daí a diferença entre auto-estima adequada e narcisismo – esse último é uma defesa). O DSM IV acrescenta que pessoas portadoras do distúrbio de personalidade narcisista possuem uma “auto-estima muito frágil” e têm “medo de que sejam reveladas suas falhas ou imperfeições”. Essa condição leva Moore a dizer que “o narcisismo é sinal de que a alma não está sendo suficientemente amada”. Esse fracasso amoroso surge como seu oposto porque a pessoa procura arduamente encontrar a auto-aceitação - buscando espelhos. Então, puramente por defesa, encontramos pessoas (como nos conta Moore) que possuem a dureza como uma qualidade básica, encontramos uma auto-absorção desprovida de alma e amor, uma rigidez e um auto-fascínio. Nathan Schwartz-Salant lista algumas características do paciente narcisista em análise:

- Carece de penetrabilidade

- Rejeita interpretação

- Não pode tolerar críticas

- Não pode integrar a abordagem sintética

- Baixa capacidade empática

- Orgulho de não ter necessidades

- Carece de sentido da história e seus processos

- Funcionamento masculino e feminino perturbado

- Potencial para formação de constelações arquetípicas positiva


Voltando ao mito, é interessante notar que é à beira da lagoa que Narciso pela primeira vez reflete e descobre algo sobre si mesmo. É na água, nesse elemento de sua herança natal (já que ele é filho de uma ninfa com um rio) que aquele Narciso duro e impenetrável pode recuperar sua umidade natural e sua fria auto-absorção se transforma em amável diálogo com o mundo. E então ele torna-se flexível, belo, enraizado – transforma-se em flor.

A pessoa narcisista se detém numa só visão a seu próprio respeito (rasa, da superfície) e as outras possibilidades são rejeitadas. Medo, insegurança fazem-no agarrar-se a traços rígidos e a “achar feio tudo o que não é espelho”. Quando descobre a “outra” face na lagoa, desprende-se de si. Moore nos fala do narcisismo como uma oportunidade de a alma encontrar seus outros aspectos.

A pessoa narcisista simplesmente não sabe como é profunda e interessante sua natureza. “Não se conhece”. A pessoa narcisista se esforça muito para ser amada, mas nada consegue, porque não percebeu que precisa amar a si mesma como “outro” antes de poder ser amada.

Schartz-Salant diz que, na análise, “se o estágio do ‘fique calado e escute’ for negociado com sucesso, a reação de contra-transferência ao fato de o analista ser controlado também pode transformar-se. O analista pode passar a sentir uma maior empatia pelo analisando e mais facilidade para penetrar-lhe as camadas profundas. Ainda há um controle, mas agora ele pode ser sentido como um apelo: “fique comigo!” E esse apelo pode ser experimentado como um pedido para que o analista fique com meu íntimo, com meu valor. Essa mudança na qualidade de controle é impressionante. De alguém que era experimentado como uma pessoa enfadonha e superficial, emerge uma pessoa que conhece o significado do termo espírito”

Pois o que o narcisista não entende é que a auto-aceitação que busca não pode ser forçada ou forjada. Narciso só fica pronto para se amar quando aprende a amar aquele eu como objeto. Narciso só pode se transformar verdadeiramente quando transforma o “espelho” em “janela”; quando sai da auto-centração e consegue enxergar o outro – algo que pode ser propiciado pela relação analítica. Essa transformação fica poeticamente ilustrada na música “Sampa” de Caetano Veloso. Nessa música ele relata como era auto-centrado e não conseguia ver a beleza no outro que não o espelhasse (“Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto/ Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto”) e humildemente acrescenta: “é que Narciso acha feio o que não é espelho”, mostrando assim já ter se flexibilizado frente à cidade de São Paulo e poder assim enxergar a beleza mesmo que ela não seja um espelho.

                                                                                LINDA FLOR NARCISA
"Seu egoísmo provocou o castigo dos deuses: um dia, ao observar o reflexo de seu rosto nas águas de uma fonte, apaixonou-se pela própria imagem e ficou a contemplá-la até morrer e em seu lugar surgiu a flor conhecida pelo seu nome."


** Podemos concluir que vivemos hoje na Era de Narciso.


        Comentário por Jota Ninos


Desde a década de 1980, o culto ao corpo da chamada Geração Saúde e a programação televisiva enfatizando cada vez mais a necessidade de esculpir uma beleza estética em detrimento de uma harmonia entre corpo e mente contribuiu com a construção desse imaginário. A ditadura da beleza de Xuxas e morenas e loiras do Tchan, esculpiu ainda mais, desde a infância, a necessidade por um padrão estético que nos diferencie dos demais. Uma diferença construída a partir de um modelo único. Acaba-se aderindo à modas e perde-se a individualidade.

Academias abarrotadas, disputas nas vitrines pelas roupas da moda e está implantada a ditadura visual. A juventude já não se preocupa com o intelecto. Basta que as “minas” sejam gatas e os “manos” sejam “sarados”.

O Narcisismo toma conta do dia-a-dia e programas como os Big Brothers da vida, só ajudam a insuflar a necessidade do espelho. A tecnologia das câmeras digitais e dos flogs na internet, contribuem ainda mais na popularização desse culto à imagem.

Um celular na mão e nenhuma idéia na cabeça. Essa é imagem contra-parafraseada à versão glauberiana. Hoje basta um aparelhinho destes para que estejamos sempre batendo fotos, de preferência de nós mesmos. É só fazer um passeio em qualquer lugar público e constatar de que 11 em 10 grupos de jovens não vivem sem isso.

Tudo isso de que falo pode parecer apenas a frustração de um ogro, cuja imagem nem cabe numa telinha... Na verdade, convivi com uma geração que não se preocupava tanto com a estética da imagem, e sim com a estética das palavras. Para isso, bastando ler. Qualquer coisa, de bula de remédio a dicionário do Aurélio.

Há quem diga que uma imagem vale mais que mil palavras. Depende muito do que se quer dizer com a imagem. Se ela está no contexto de um texto sim. Mas a imagem pela imagem é um desperdício.

Essa ditadura estética da vaidade acaba abalando até mesmo quem deveria conviver harmonicamente com os efeitos da natureza. Envelhecer virou sinônimo de morrer em vida. Daí, a beleza e a jovialidade passa a ser medida pela quantidade de silicone, ou para quem não tem dinheiro, pela quantidade de enchimentos em roupas!

Nas lojas, as “desbundadas” podem encontrar inclusive enchimentos para os glúteos! Estão nos roubando até a possibilidade de adorar uma beleza natural, já que às vezes podemos estar admirando um belo par de silicones ou um enchimento de nylon.

Entretanto, o que há de mais no corpo, às vezes tem de menos na cabeça.

Daí a existência de playboys com seus carrões envenenados, com aparelhagens a mil decibéis infernizando nossos ouvidos. Pobres meninos, que provavelmente são pouco desprovidos de tutano e músculo peniano, precisando compensar com suas aparelhagens. A sociedade tolera o abuso, mas de vez em quando a Justiça freia os ânimos narcísicos que invadem o direito dos outros.

Mas esqueçam o que eu digo. Daqui há pouco serei chamado de despeitado, mesmo que me considere um narcisista.

É que para mim o que vejo no espelho é bonito. Por dentro e por fora, sem precisar de enchimentos ou de sons em alto volume...






** Belíssimo comentário!! não poderia deixar de anexá-lo.
Copiado do Blog
http://jotaninos.blogspot.com/2007/08/narciso-acha-feio-o-que-no-espelho.html

OBS:A gravura do jovem rapaz  é uma reprodução da obra de Caravaggio.








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