"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)



“Presos ou soltos, nós, seres humanos, somos muito cegos e sós. Quase nunca conseguimos transcender os nossos estreitos limites para enxergar os outros e a nós mesmos sem projetar o nosso próprio vulto na face alheia e a cara dos outros na nossa.”


"Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma... Todo o universo conspira a seu favor!" - Goethe





"Sou sempre eu mesma,mas com certeza não serei a mesma para sempre!"



Clarice Lispector



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

PERDAS SÃO COMO FERIDAS.










Evaldo A. D´Assumpção
Cirurgião Plástico e Tanatólogo

Geralmente consideramos a morte de uma pessoa querida como a grande perda de nossas vidas. E ela o é. Contudo, também a perda de um emprego, um acidente que destrói o nosso carro, o fim de um casamento, são perdas bastante significativas para o ser humano.

Todas essas perdas, tanto quanto a morte de alguém representa, para nós, uma morte psicológica. E quando sofremos qualquer uma delas, temos reações semelhantes àquelas que teremos ao nos defrontarmos com a nossa própria morte. Se aprendermos a conviver de modo saudável com a nossa morte - única realidade da qual não temos como fugir - aprenderemos também a conviver e superar as perdas, menores ou maiores, que porventura acontecerem em nossa vida.

Esse aprendizado não é tão fácil se levarmos em conta nossas raízes culturais, onde a morte sempre é um tabu e dela devemos até evitar pronunciar o nome. "Falar da morte atrai a morte", afirmam certos filósofos de rua.

Nada mais absurdo. A morte tem se demonstrado, ao longo da história, ser a melhor professora de vida. Bem conscientes de nossa mortalidade, aprendemos a viver cada momento como se fosse o único sem, contudo perder de vista que poderá existir um "depois". Assim agindo poderemos viver intensamente cada dia sem, contudo, fazer coisas das quais amanhã, se chegarmos lá, tenhamos de nos arrepender de ter feito.

Conscientes de nossa mortalidade, sabendo que tudo na realidade em que vivemos é impermanente - nada dura para sempre - teremos profundo amor e respeito por cada momento que estivermos vivendo. Mas também amaremos e respeitaremos o momento do outro. Afinal, como eu ele também tem o direito de ser feliz.

Na certeza da impermanência das coisas, não nos apegaremos a nada nem a ninguém, mesmo amando a tudo e a todos, profundamente.

Não nos julgaremos donos de nada nem de ninguém, mas tão somente zeladores de tudo o que nos é dado nesta vida.

Respeitaremos a liberdade do outro e viveremos bem conscientes de que ninguém tem o direito - nem consegue! - ser feliz sozinho.

Este é o grande segredo para superar as perdas, todas elas: É saber que, se de nada somos donos, nada temos para perder. Tudo existe para ser igualmente compartilhado com respeito e amor.

O apego é o maior dos males, a maior fonte de dor e sofrimentos para todas as pessoas, para toda a humanidade

Aprender que amor não é apego, que quem ama não se julga nem age como dono, é o verdadeiro caminho da felicidade!

Por outro lado, posso usar minha condição de cirurgião plástico para comparar as grandes perdas que sofremos na vida com um ferimento que se abre em nosso corpo. Quando isso acontece iremos sentir dor, mais ou menos intensa, em conformidade com a extensão da ferida, sua localização e como ela aconteceu.

Também quando sofremos uma perda, sua dor dependerá da extensão dessa perda, as circunstâncias em que ela ocorreu e o que, ou quem, foi que perdemos.

Constatando que estamos feridos, poderemos procurar socorro, ou não. Se o procuramos, podemos fazê-lo num hospital bem equipado, com um médico competente. Desse modo a ferida será convenientemente tratada e uma eficaz medicação contra a dor será imediatamente instituída, trazendo alívio para o nosso padecimento.

Por outro lado, se tentarmos tratá-la sozinhos, certamente o curativo não será tão bem feito, a medicação poderá não ser eficaz e ainda correremos riscos de complicações . O mesmo ocorrerá se procurarmos ajuda em lugares inadequados e com pessoas erradas. Nesses dois casos, o sofrimento será maior e o resultado final poderá ser desastroso.

O mesmo acontece diante de uma grande perda. Se procurarmos ajuda adequada, com pessoas bem indicadas para essa ajuda, a dor e o sofrimento existirão, porém lentamente irão se amainando diante da acolhida e da assistência que nos serão dadas.

Se procurarmos ajuda em lugares fantasiosos, e pessoas com ofertas de soluções mágicas, assim como se recusarmos qualquer apoio, certamente nosso sofrimento crescerá muito. A dor da perda irá nos machucar bastante e correremos o risco de, quanto mais sofrermos, mais criarmos obstáculos para a obtenção de uma ajuda eficiente.

Se a ferida for bem tratada, ainda assim não poderemos nos descuidar dela. Muitos cuidados deverão ser dispensados à região machucada, tais como curativos, imobilização e medicamentos, que irão ajudar na cicatrização e, em alguns dias, tudo estará fechado.

Como o sofrimento pela perda. Se foi bem cuidado, irá progressivamente diminuindo até que tudo parecerá ter acabado.

Para as feridas físicas, tanto como para as feridas da alma, o tempo ainda é um bálsamo insubstituível!

Uma vez que a ferida esteja totalmente cicatrizada, restará, contudo, uma cicatriz. Que também deverá ser cuidada corretamente. Toda cicatriz leva de seis meses a um ano para completar a sua maturação. Durante esse período ela fica sensível e a pele perde a sua elasticidade. Mas, com o tempo ela irá se tornar indolor e às vezes até mesmo inaparente. Apesar de continuar ali. Quem sabe de sua existência a verá sempre, ainda que já não incomode.

A dor e o sofrimento de uma perda, também irão progressivamente diminuindo, até chegar a um ponto em que não mais nos incomodarão. Viveremos nossos dias sem sermos perturbados por eles. Todavia, em algumas situações da vida, em alguns momentos especiais, a cicatriz emocional poderá ser vista. E poderá até mesmo trazer um certo desconforto. Mesmo assim não atrapalhará nossa caminhada flúida, pela vida.

Ferimentos do corpo e da alma são bastante semelhantes. Doem, incomodam, evoluem, acabam se curando, mas sempre fica uma cicatriz. Por vezes, e quando bem tratadas, essas cicatrizes se tornam quase totalmente imperceptíveis. Mas, para o seu portador, ela sempre existirá. E não tem a menor importância que ela exista. Desde que seja indolor e bem inaparente, não interferindo com o viver em plenitude.

Mas, com certeza, isso só irá acontece se tratarmos bem e corretamente, o ferimento inicial.






Soltar a dor para ir adiante.


Cecília Dionizio






Ficar livre da dor de uma perda importante, seja por morte ou abandono, é algo que ninguém consegue determinar quando e como vai acontecer, mas com certeza é o sentimento que mais sofrimento pode causar ao ser humano. Até aí, tudo normal, uma vez que sofrimento nestas condições é algo natural. Contudo, não sair desta situação por um período muito prolongado pode causar danos irreversíveis caso não se saiba como deixar o luto para retomar a vida. Em recente publicação sobre o luto, a psicóloga Karina Okajima Fukumitsu, autora do livro “Uma Visão Fenomenológica do Luto e Suicídio e Psicoterapia”, organizado pelo psicólogo Hugo Ramón Oddone Barbosa, cita o artigo de Parkes (1998), autor de uma das publicações mais procuradas sobre o luto, em que relata: “apesar de as pesquisas dos prontuários não terem sido suficientes para permitir cálculos de probabilidade, é possível afirmar que a perda de filhos pode causar problemas psicológicos ou psiquiátricos.”




Não raro é possível se deparar com pessoas que antes da perda eram consideradas extremamente centradas e depois passaram a ter comportamentos inapropriados. Neste caso, a solução é sempre buscar ajuda externa, por mais que o tema não encontre muitas referências em nosso meio.

Karina observa que “normalmente, as pessoas não falam sobre morte por acreditarem que a esperança acaba. Mas além de acolher e ouvir, nem sempre há algo a dizer. Mas em vez de explicar, pode-se oferecer a compreensão dos sentimentos e compartilhar com o outro aquilo que viveu com o morto; em vez de dar respostas, acolher; em vez de oferecer teorias sobre o luto, confirmar a vivência singular”, diz. Quem passou há menos de três meses pela perda do marido foi a dona-de-casa P.C., 56 anos, que diz ainda não ter assimilado o ocorrido. “Há horas que me vejo tendo conversas mentalmente com ele, como se a qualquer momento fosse ouvir a sua voz me dizendo o que fazer. É como se isso me desse forças para prosseguir. Confesso que não sei se algum dia vou conseguir voltar a ser quem eu era”, afirma.




Por outro lado, e talvez com a mesma intensidade, sofre quem foi abandonado em algum momento da vida pela pessoa amada. De acordo com a consultora em relacionamento Rosana Braga, a sensação é terrível, e a pessoa se sente inconformada, esmagada, por tudo o que disse ou deixou de dizer. Aparece de tudo, desde o arrependimento ao atordoamento provocado pela tristeza do que poderia ter sido e não foi. Há momentos seguidos em que a pessoa não sabe mais o que fazer para parar de doer. Daí vem o conselho. “Acredite, só tem um jeito: solta”, diz a consultora.




Rosana explica que a dor é consequência de um apego inútil. Que não há nada melhor a se fazer nessas horas do que confiar na vida, no Universo e seguir em frente. Parar de se debater e se perder cada vez mais, com a certeza absoluta de que o que tiver de ser, será. E é neste sentido que a consultora acredita que o melhor a fazer é deixar ir e viver a certeza de que é apenas isso que se pode fazer no momento. “Quando você se solta do apego, a dor começa a diminuir e a gente começa a compreender que está tudo certo, mesmo quando não temos a menor ideia de que ‘certo’ é esse. Não se trata de desistir, mas de confiar. Isso é o que se chama ‘fé’”, afirma.


















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