"Vença a si mesmo e terá vencido o seu próprio adversário." (Provérbio japonês)



“Presos ou soltos, nós, seres humanos, somos muito cegos e sós. Quase nunca conseguimos transcender os nossos estreitos limites para enxergar os outros e a nós mesmos sem projetar o nosso próprio vulto na face alheia e a cara dos outros na nossa.”


"Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma... Todo o universo conspira a seu favor!" - Goethe





"Sou sempre eu mesma,mas com certeza não serei a mesma para sempre!"



Clarice Lispector



quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A importância da Falta de Memória .

 

Por Alex Castro

As pessoas me elogiam por muitas coisas, mas nunca ninguém me elogiou pelo que talvez seja minha melhor qualidade: eu tenho péssima memória. Como deve ser pesada a vida das pessoas que lembram tudo. Ninguém está a altura de alguém que lembra em tudo.

Em algum momento, você deve ter pisado na bola, falado uma palavra atravessada... e a pessoa lembra. Não importa se existem dez anos de memórias boas para contrabalançar: aquela pequena vacilada flutua acima de todas as outras. Muitas mulheres são assim. Como suportam suas vidas? Não é à toa que, a partir de uma certa idade, a maioria das mulheres torna-se muito mais amarga e ressentida do que os homens.

Sábias aquelas mulheres que sabem relevar o negativo. Quando morre alguém que amamos, a dor parece não ter fim. E pensamos: fulano morreu hoje. Amanhã, terá morrido ontem. Ano que vem, no ano anterior. A cada dia que passa, sua vida e sua experiência, nossas memórias e nosso amor, tudo ficará mais distante e mais embaçado. Um dia, eu vou perceber que não penso nele há uma semana.

Outro dia, ele já terá sido esquecido. E a vida prosseguirá, como se nunca houvesse existido. Essa dura constatação só faz piorar a sensação de perda. Por outro lado, se continuássemos sentindo indefinidamente aquela dor que sentimos na hora da morte, a vida tornaria-se inviável. 

Pais que perdem filhos às vezes caem em traumas assim. A memória domina o presente e devora-o. Borges conta a história de Funes, o Memorioso, um homem cuja memória era tão prodigiosa que ele mal funcionava como ser humano.

Pra começar, Funes não conseguia apreender os nomes dos objetos. Ele via dois cachorros diferentes e, como lembrava de cada detalhe de cada animal, era incapaz de enquadrar dois objetos tão diferentes debaixo de uma só nomenclatura. 

Na verdade, para ele, até mesmo o cachorro das 15:03hs, voltado levemente para a esquerda, era tão diferente do cachorro das 15:04hs, voltado para frente, que não poderiam ser o mesmo objeto.

Funes conseguia lembrar de um dia inteiro do passado, qualquer dia que ele quisesse, em todos os seus mínimos detalhes. Mas, para isso, ele precisava de outro dia inteiro. Não há melhor metáfora do alto preço que a memória nos cobra. Puxar um dia do passado nos custa um dia no presente. 

O paradoxo da vida, disse um dinamarquês maluco, é que ela só pode ser entendida pra trás, mas só pode ser vivida pra frente. É uma questão de definir nossas prioridades. Eu lembro de muito pouca coisa da minha vida.
Minha infância é uma tábula rasa. Da adolescência, não resta quase nada.
Freqüentemente, eu me maravilho com coisas que já deveria estar cansado de conhecer. Não troco minha capacidade de maravilhar por todas as memórias do mundo. E só lembro de coisas boas. Traumas, insultos, medos, ódios, eu os não os tive ou não os lembro - o que, afinal, dá no mesmo. Nem sempre esse dom é benéfico.
 

A Cruel Capacidade de Lembrar Tudo

 

Poucos meses após minha separação, já haviam desaparecido da minha consciência todos os maus momentos que destruíram meu casamento. Racionalmente, eu entendia que a opção pela separação tinha sido acertada. Mas, emocionalmente falando, os maus momentos não estavam mais lá. Eu já não conseguia acessar a tristeza e a frustração que senti ao vivê-los. Sabia que tinham ocorrido e só. À seco.

Os grandes momentos, entretanto, continuavam vivos pra mim, pulsantes de luz e felicidade. Minhas emoções jogaram baixo, tentaram me derrubar.

Esfregavam um dia perfeito na minha cara e diziam: tem certeza que quer se separar da mulher com quem viveu isso, e isso, e mais isso? Olha lá, hein? E eu rebatia: e os maus momentos? E aquilo e mais aquilo que aconteceu? Ah, isso eu não lembro não, respondia meu coração. Era um diálogo difícil. 
Foi a única vez na minha vida que desejei ter essa capacidade cruel de lembrar e catalogar todos os meus ódios, raivas, tristezas e frustrações. Mas não consigo: eles todos escoam pelo ralo da memória, sem critério, sem choro. Depois, passou.

Fantasmas de Felicidades Passadas

A felicidade passada também pode ser um fantasma atormentador. Leia mais sobre isso, em um ensaio que será posteriormente acrescentado à Prisão Felicidade, a última da série.

A Função do Perdão

Todos os nossos instintos animais nos ensinam a proteger os nossos (nossa família, nossa tribo) e a temer tudo o que nos é estranho. Quando eu vi uma pessoa negra pela primeira vez, ainda criança de colo, eu gritei, apavorado. Nada mais natural do que uma criança branca, que nasceu e cresceu entre brancos, ainda puro instinto, tenha medo de um ser todo preto. Inaceitável seria que eu ainda estivesse assim 30 anos depois.

A maioria dos meus leitores (ou assim espero) consideraria preconceito e arrogância se julgar superior aos angolanos somente porque eles vivem em um país mais fraco, mais pobre e sem destaque algum no cenário mundial. Mas esses mesmos leitores vivem acorrentados em uma prisão de ódio, ressentimento e inveja contra os americanos.

Desprezar o mais fraco por ser mais fraco é a mesma prisão que odiar o mais forte por ser mais forte. Naturalmente, não estou falando só de patriotismo. A maioria de nós vive acorrentado em uma prisão de ódios, ressentimentos, invejas e desprezos pelas pessoas que nos cercam. Dizia um moço bigodudo, que falava com cavalos, que você olha no abismo e o abismo olha em você.

Acabamos nos tornando o que odiamos. Por causa disso, um outro moço, esse barbudo, recomendava dar a outra face e perdoar quem lhe ofendesse. Aproveitem bem esse parágrafo, pois ambos raramente são citados juntos.

Aliás, eu às vezes acho que dou mais valor aos ensinamentos do barbudo do que muita gente que come seu corpo e bebe seu sangue. Devemos perdoar quem nos ofendeu não pra ser bonzinhos, ou para ir pro céu, mas para nos libertar da ofensa.

A ofensa não perdoada é cancerígena. Ela fica purgando dentro de nós, até se tornar fatal. A injúria passada, o xingamento engolido acaba nos definindo: nós nos tornamos o insulto recebido. O objetivo do perdão não é premiar o perdoado, mas libertar o perdoador. Dêem a César o que é de César e não olhem pra trás.

Ofereçam a outra face e não se fala mais nisso. Estejam acima das pequenas coisas da vida. Sejam grandes!

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"Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma... Todo o universo conspira a seu favor!" - Goethe "Sou sempre eu mesma,mas com certeza não serei a mesma para sempre!" Clarice Lispector

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